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Coadopção? "Metem-me nojo".

por Francisco Teixeira, em 14.03.14

Almoçava eu com um amigo, junto ao Parlamento, quando um grupo se aproximou da nossa esplanada na Praça das Flores, em Lisboa. Na frente do grupo, o líder, ou assim fisicamente se apresentava, trazia os olhos bem abertos e o dedo em riste. “Vocês metem-me nojo! Metem-me nojo! Metem-me nojo!”, gritava insistentemente Paulo Pamplona Côrte-Real.

A esplanada parou. Olhou à volta e percebeu que o senhor dirigia-se a mim e ao meu amigo. “Vocês metem-me nojo! Metem-me nojo! Metem-me nojo!”, insistia com os braços no ar. Automaticamente levantei-me e perguntei-lhe cara na cara se me conhecia. Sabia quem eu era? O que tinha feito? “Vocês metem-me nojo! Metem-me nojo! Metem-me nojo!”, ele não saía dali.

 

Mais tarde, já eram duas as pessoas que gritavam o mesmo: “Vocês metem-me nojo! Metem-me nojo! Metem-me nojo!”. Dirigi-me a Miguel Vale de Almeida, que aprendi a respeitar quando passou pelo Parlamento. Mas ele insistia: “Vocês metem-me nojo! Metem-me nojo! Metem-me nojo!”. Disse apenas: “Tinha melhor ideia sua: não por concordarmos, mas por sermos sensatos”. “Preferia que me achasses uma merda”, respondeu exaltado.

Num primeiro momento senti-me a regressar à bancada sul, do demolido estádio José Alvalade, onde passei muitas noites e tardes da minha adolescência. Porquê tudo isto? O meu amigo, deputado, tinha acabado de votar a co-adopção por casais homossexuais e o voto dele tinha ido contra a vontade de Miguel Vale de Almeida (ex-deputado) e de Paulo Pamplona Côrte-Real (da direção da ILGA).

Eles não sabiam, mas acertaram: sou conservador nos costumes, sou contra a adoção por casais homossexuais. E digo-o hoje, aqui, como diria no Parlamento se fosse deputado, ou nas urnas se o tema for referendado. Não sou melhor por pensar assim. Sei sim, que penso assim. Sei sim que, no meu país, posso pensar assim sem ser insultado e mal tratado enquanto almoço numa esplanada. 

O que me assustou não foram os insultos. Com insultos posso bem. Foi de onde vieram: de duas pessoas que têm a obrigação de elevar o debate e vencer as suas batalhas com argumentos sólidos. Não com insultos baratos. Despedi-me de Miguel Vale de Almeida e de Paulo Pamplona Côrte-Real, entre os gritos que soltavam com uma frase curta: “Quem chega à vossa idade e se comporta assim é porque não aprende”. 

Eles sentaram-se numa mesa a 10 metros da nossa, onde se juntaram outros defensores da mesma causa. Achei genuinamente que, durante a hora que durou o meu almoço, se levantariam para pedir desculpa pelos insultos. Pagámos, pedimos fatura com contribuinte e viemos embora. E, como é óbvio, enganei-me: não houve pedido de desculpas. 

Admito que a democracia tenha saído derrotada, aos olhos de alguns, quando hoje o Parlamento chumbou a co-adopção por casais do mesmo sexo. Mas estou certo que saiu muito maltratada quando dois senhores letrados e educados partem para o insulto gratuito, apenas e tão só, porque há quem pensa diferente. A este comportamento e, apenas, a este comportamento deixo duas palavras: "Mete-me nojo". 

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publicado às 20:28


14 comentários

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De I. a 15.03.2014 às 07:26

No meio disto tudo fico contente que tenha pedido factura com o número de contribuinte, dou pulinhos de alegria. Agora deixe lá a história da carochinha e escreva como realmente as coisas se passaram.
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De J. a 16.03.2014 às 12:13

E se no meio disto tudo, aqueles que tanto clamam e reclamam que as coisas não se passaram assim (como no blog jugular, por exemplo) contassem detalhadamente a sua versão da história?
Porque carga d'água temos de acreditar cegamente num simples "não foi ben assim",?
Portanto saiam da vossa "zona de conforto" e contem como é que as coisas realmente se passaram porque senão a sensação com que se fica é que as coisas se passaram mesmo assim...
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De womanonceabird a 15.03.2014 às 08:35

Meu caro, não confunda conservadorismo com preconceito e vistas curtas (que não passam da própria barriga). Sim, nojo, um grande nojo e asco em relação ao que ontem se passou na Assembleia. Que o calculismo eleitoral lhes saia furado, é o que desejo.
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De Paulo Inácio a 15.03.2014 às 22:14

Que desaforo, invadiram assim a SUA esplanada!
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De Miguel a 16.03.2014 às 16:19

Não precisavam de ter nojo.Podiam deixar os portugueses decidir em referendo.
A democracia só sai maltratada quando um pequeno grupo de pessoas pisa a vontade da esmagadora maioria.
Sabiam que a única forma de fazer passar a lei seria através dos representantes que não respeitam os representados.Desta vez,porém,enganaram-se.
Mas,não é preciso nenhum Einstein para prever que voltarão à carga depois de anestesiar a população através de programas de tv ou manobrando no seio dos partidos,onde têm muitos colegas de desvio.
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De Paulo a 16.03.2014 às 17:52

Caro Francisco:

Como é óbvio, não me revejo nos actos das pessoas que o insultaram pelo simples facto de terem sido derrotadas numa votação. O insulto nunca é solução para coisa alguma.

No entanto, também acho lamentável que APESAR de tantas publicações, estudos e relatórios que demonstram não haver qualquer problema em temas como o casamento homossexual ou a adopção de crianças por casais do mesmo sexo, você (que é uma pessoa inteligente e esclarecida) continue a justificar a sua posição com um simples "sou conservador nos costumes" ou "sei sim, que penso assim". Ora, um deputado que vota, deveria perceber nas implicações do seu voto, ou seja, na responsabilidade para com a sociedade que em muito ultrapassa o "eu". Do meu ponto de vista o voto de um deputado deve ser o voto de uma sociedade (para o bem desta) e não da pessoa que vota. Do meu ponto de vista, o voto deve pensar na evolução da sociedade e não para o seu passado. Os comunistas, por exemplo, permanecem presos ao século XIX, logo, são incapazes de olhar para as coisas como elas são. Ficam presos às coisas como eles acham que deviam ser - contra todas as evidências.

Os comunistas são conservadores.

É claro que você tem o direito de pensar o que quiser... que os homossexuais só fazem mal às crianças, que não se pode confiar numa mulher para "certos" trabalhos... ou mesmo que os judeus não são boa gente. Você pode pensar tudo...

...Mas o simples facto de você pensar como pensa não lhe põe no lado certo da história. A sua honestidade de pensamento é clara. Porém, houve imensa gente com a mesma honestidade a fazer coisas horríveis.

Mesmo pensando como pensamos (porque o passado e os costumes sempre pesam sobre nós) é importante que nos informemos sobre as coisas até pelo bem do próprio debate que DEVE SEMPRE ser elevado.
Caso contrário, a sua posição "sou conservador e pronto!!" torna-se tão surda e autista quanto a do "Metem-me nojo!".

Nós já não estamos no tempo em que se achava que a mulher é propriedade do marido. Tenho a certeza de que você já não pensa assim. Mas imagine que houve um tempo em que a maioria pensava assim somente por serem conservadores nos costumes.

Não há qualquer problema em ser-se conservador. O problema surge apenas quando um conservador não tem coragem para permitir-se evoluir face a conservadorismos que já não fazem sentido - com o prejuízo das pessoas que continuam a ser discriminadas e de um conjunto de crianças que deixam de ganhar uma família.

Obrigado.
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De Fernando a 16.03.2014 às 23:36

Meu caro, quer elucidar-me com a referência a UM (UM só) "estudo e relatório" acerca da educação de crianças apenas (a questão é este "apenas") por casais homossexuais (e não por casais homossexuais e o convívio com o ser outro progenitor de sexo diferente)?
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De Carlos Reis a 16.03.2014 às 18:49

Não me metes particularmente nojo. Mas este teu post é um bocadinho mete-nojo, lá isso é.
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De Francisco Teixeira a 16.03.2014 às 21:38

Carlos tu nunca farias o que estes senhores fizeram. Pelo menos o Carlos que não me mete nojo. Esse nunca faria isso. Esse Carlos ganhou o meu respeito. Delapidou-o um pouco há dias quando confundiu o que pode ser um erro político [pode ser, sublinho] com aquilo que é um erro crasso: a divulgação da orientação sexual de alguém como arma de arremesso - um crime, em qualquer país civilizado do mundo.
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De José a 17.03.2014 às 01:48

Francisco isso do "posso pensar assim sem ser insultado" não é bem assim. Bem é e não é. De facto também não concordo nada que se vá para uma esplanada insultar alguém gratuitamente! Mas que há coisas que metem nojo e pessoas que por defenderem essas coisas merecem ser deixadas ao ostracismo há! Exemplo prático: o Hitler ou o Mao (só mesmo para não me alongar muito em exemplos) quase de certeza que também achariam que não deviam ser incomodados por pensarem como pensavam mas que metiam e metem um grande nojo para milhões de pessoas metem! Quem fosse esclavagista em muitos países, ainda há uns 200 anos atrás, também concordaria que por ser conservador tinha direito a pensar como pensava, mas que hoje metem muito nojo metem! Há 100 anos atrás, ou até há apenas umas décadas, muitos conservadores também achariam que o lugar da mulher era na cozinha e que elas não deveriam votar, mas que hoje metem nojo metem! Há apenas meio século na América, ou até apenas umas 2 décadas na África do Sul, também "tínhamos o direito de ser a favor da segregação racial e o casamento inter-racial era um nojo" mas quem hoje ainda pensa assim é que mete nojo! Há apenas uma década, já em pelo séc. XXI, mal havia casamento homossexual (com adopção) onde quer que fosse mas hoje multiplicam-se pelo mundo fora os sítios em que é permitido e em todas as sondagens feitas nos mais diversos países já com o casamento, ou mesmo em muitos que ainda só o discutem, as pessoas abaixo dos 30 são das que mais apoia o casamento homossexual com adopção incluída, sendo, segundo n pesquisas feitas pelos mais diversos países, uma coisa absolutamente natural de ser reconhecida. Para essas pessoas a homofobia e pessoas contra o casamento homossexual "só porque são conservadoras e têm direito a pensarem como pensam" metem de facto nojo! E o apoio ao casamento homossexual é tanto nas gerações mais novas que abrange largamente a direita! (o David Cameron está longe de ser o único conservador a lutar/que lutou por ele!) Quer ficar na sua e achar que tem direito a ser contra "só porque é conservador": muito bem, até pode ficar. Mas, como alguém de direita e que está na casa dos vintes, e cujo meio em que me movo é maioritariamente constituído também por jovens de direita na casa dos vintes, tenho que deixar o aviso: daqui a uns 10/20 anos quando o segmento da população mais velho (que é o mais homofóbico/contra o casamento e adopção) desaparecer por força das circunstâncias, será substituído por outro segmento da população muito mais aberto em relação a este tema, incluído à direita! (nas conversas de cafés muitos jovens votantes do PSD e CDS que não são militantes e por isso não são escutados pelas estruturas, onde me incluo, andam chocados com a intransigência que houve nestes partidos, já que se quis criar uma unanimidade nesta matéria entre os deputados que não existe, de todo, no eleitorado destes partidos) Daqui a esses 10/20 anos (para nem avançar ainda mais no tempo!) muito provavelmente o Paulo Pamplona ou o Miguel não serão, nem pouco mais ou menos, os únicos a relembrar estes dias com nojo!
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De Francisco Teixeira a 17.03.2014 às 08:46

José concordo com tudo o que escreveu.
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De Francisco Teixeira a 17.03.2014 às 08:47

[o post não sobre as minhas convicções em matéria de costumes, mas as minhas certezas em matéria de civismo].
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De marta nogueira a 17.03.2014 às 12:04

pois eu peço-lhe desculpa, por mim, por esses senhores e por todos os outros. é que às vezes, perante situações deste tipo, nós, os que não somos conservadores nos costumes não sabemos o que fazer e sem querer, partimos para o insulto. é um luxo de facto viver-se num país em que se pode pensar assim ou de outra maneira sem se ser insultado ou maltratado. é um luxo viver-se em democracia, mas sabe, o pior é quando a democracia é mal entendida, e neste país, a democracia é mais ou menos como a língua portuguesa... muito traiçoeira. se não imagine, existem uns que gostam de laranjas e outros que não gostam de laranjas, certo? cada um, no seu pleno direito de gostar ou não. mas entretanto, os que não gostam de laranjas resolvem legislar sobre o assunto de se comerem laranjas, e através da lei e porque eles próprios não gostam de laranjas, impedem-me a mim, que gosto, de as comer. ora, caro senhor, isto não é democracia. talvez, devam intervir, averiguando, investigando, se os que dizem gostar de laranjas, e as plantam, se o fazem em solo fértil, se são regadas, apanhadas quando maduras, enfim, bem tratadas. mas atenção, isto é independente de quem gosta das laranjas ser o que é, igual a si. agora, intervir na escolha de quem as quer comer... parece-me desprovido de qualquer bom senso, só porque se é conservador nos costumes. parece-me um atentado à liberdade de cada um. porque tal como o senhor mesmo disse ninguém é melhor, ou pior, por pensar assim. talvez vos falte pensar, o que estão de facto a tentar legislar, partindo de um princípio de que somos diferentes por gostarmos de coisas diferentes. os seus costumes conservadores não se podem sobrepor aos costumes de quem não é conservador, porque a democracia é isso mesmo e muito mais. e até lhe digo mais, dizerem-lhe apenas 'vocês metem-me nojo', é uma sorte. podiam tê-lo amarrado a um poste.
marta nogueira
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De Francisco Teixeira a 17.03.2014 às 13:11

Marta não percebeu o óbvio: em nenhum momento eu tive ou tenho o topete de impor as minhas ideias. Só não gosto é de ser insultado. Só isso. Ser publicamente insultado por desconhecidos.

P.S. Se a Marta gosta de ser amarrada a postes e tem nessa prática uma forma de livre e saudável convívio social muito bem. Talvez deva mudar-se para a selva. Eu não pretendo, obrigado.

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