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Alívio intemporal

por Francisco Teixeira, em 24.02.14

Em Agosto de 1996 saí de Portugal e fui para os Estados Unidos viver durante um ano com uma família americana, os Lewiecki, com quem ainda hoje mantenho uma relação de grande proximidade. Hoje lembrei-me deles, falámos há pouco tempo, por skype, há uns 15 dias mas lembrei-me por causa da Ucrânia, o país de onde emigrou há 150 anos a família do meu pai americano. E apercebi-me do óbvio: o tempo mudou...ou talvez não.

 

Contar a experiência AFS, no meu caso extremamente bem sucedida, num post é impossível assim que me fico por um aspeto apenas: o tempo. Mas vou fazer zoom: o valor do tempo há 18 anos e o valor do tempo hoje. O valor do tempo há 150 anos e o valor do tempo hoje.

 

Vamos a isso. Escolhi os Estados Unidos, de caras, porque queria viver na primeira pessoa o que os filmes me davam - a dimensão que a cultura americana tinha. Numa frase: da prom ao futebol americano, passando pela festa de graduação eu queria ser americano durante um ano. Lá fui. Saí de Portugal e ainda não existia internet. Cheguei a Albuquerque, no Novo México e a internet era coisa de acesso difícil e sem correspondência em Portugal. Durante o ano letivo, os jornais Público e A Bola passaram a ter alguma informação online o que se revelou uma bênção para quem, como eu, sofria pelo Sporting e pelo Barça do Figo. Conseguia aceder aos site uma vez por semana.

 

Mas para que entrem na minha realidade de então: não tínhamos facebook (dahhhh), não existia internet massificada, não existiam algumas das maiores fortunas que hoje conhecemos, eu não tinha conta de email, na escola o nosso contato era feito por três vias: pessoalmente, por telefone ou por...bipper, vocês não podem imaginar uma coisa tão simples quanto estúpida  - todos os dias esperava pela chegada do carro do correio porque era através das cartas que sabia o que se passava em Portugal, sabia dos meus amigos e da minha família. Era por carta que o meu avô me enviava a primeira página do record que comprava religiosamente todos os dias.

 

 Há dias conheci alguns miúdos portugueses que, com 16 anos, estão a ponderar ir para os Estados Unidos no mesmo programa de intercâmbio em que fui em 1996. Eles pensam partir em Agosto de 2014

 

Gostava de dizer que se tratava do mesmo programa, mas não é o mesmo programa porque o tempo mudou. Eles não estão focados na prom como eu estava, mas no negócio que vão criar, não pensam no futebol americano, mas na empresa que vão desenvolver, não procuram a graduação pelo diploma mas pela patente que um dia vão registar. Hoje, e ainda bem, os jovens portugueses são muito mais business oriented do que eu era há 18 anos.

 

O programa que fiz, em 1996, é distinto daquele que o meu pai americano fez em 1963 quando saiu de Boston, de barco, e demorou três meses até atracar em Amsterdão onde estudou durante um ano. O meu pai americano desde 1963 jamais se esqueceu do assassinato de Kennedy, em Novembro, no Texas, de que só teve conhecimento dias mais tarde. As imagens só as viu quando regressou aos Estados Unidos, já em 1964, 10 meses mais tarde.

 

O tempo mudou, mas há coisas que o tempo jamais mudará. Mudem os tempos ou mude o paradigma e os instrumentos que medem o tempo teremos sempre o nosso tempo. Hoje o meu tempo disse-me que já era tempo de correr com o Yanukovytch. Tenho a certeza que o bisavó do meu pai Americano diria o mesmo. Hoje ou há 150 anos atrás, este alívio seria sempre intemporal. 

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publicado às 22:41



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