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Há 10 anos a minha vida mudou.

por Francisco Teixeira, em 11.03.14

A 11 de Março de 2003 não fui pai. Não descobri uma doença terminal. Não perdi um amigo ou um irmão. Há 10 anos vivi a experiência mais rica e desoladora de toda a minha vida profissional. Cheguei à Rua Ivens, no Chiado, ainda meio ensonado. Tinha acabado de trabalhar n’O Independente às dez da noite anterior e eram já seis e uns minutos da madrugada de terça-feira quando entrei na Rádio Renascença. Era a hora habitual, com o sono habitual que o frio de Março ajudava a esconder.

Ensonado como vivia sempre, estava a escrever notícias de internacional para serem lidas pelo Arsénio Reis, o editor que estava em antena quando, por volta da oito da manhã, disparou a primeira bomba em Madrid. Li sobre ela minutos mais tarde na página eletrónica do "El Mundo". Estava a fazer refresh quando entrou a head-line. Tinha vivido em Madrid entre 2001 e 2002 e, um ano depois, saltava à minha vista um atentado na minha segunda cidade. O editor falou com a directora, a directora enviou-me para Madrid, jornalista há escassos meses. Ia tão nervoso quanto orgulhoso. Aterrei em Madrid às 11:30 desse mesmo dia, hora local, 10:30 em Lisboa. Táxi directo para Atocha. Barreira da polícia e carros mortuários alinhados. O primeiro corte na respiração.

Depois de algumas horas em reportagem saí de Atocha, onde já nada mais havia para contar, e fui para os hospitais da cidade onde estavam a ser tratados os feridos enquanto se aguardava a chegada da família real. Terminei a noite a beber cañas na Casa Tony, a tapería onde um ano antes jantava uma vez por semana. Achei que podia respirar mas foram 6 dias sem parar.

O jantar foi interrompido porque nessa noite/madrugada de terça para quarta-feira tinha sido descoberta uma carrinha com explosivos e um filme, em árabe, que desmentia a tese oficial inicial de que tudo não passava de um atentado da ETA. O PP ficava nas cordas porque meses antes tinha avançado para o Iraque de braço dado com Portugal, Bush, Blair.

Entre terça e domingo vivi os dias mais intensos da minha vida como jornalista. Assisti à maior manifestação que os meus olhos alguma vez viram, encabeçada por Blair, Schroeder, Barroso e Aznar; vi os resquícios do maior atentado (à época) terrorista alguma vez levado a cabo na Europa; vivi a maior manipulação de um Estado democrático, a 24 horas de eleições, com uma manifestação politicamente conduzida a cercar a sede do PP; nunca mais me esquecerei da cara seca e cabisbaixa de Aznar enquanto votava nesse domingo e do sorriso infantil e impreparado de Zapatero na primeira conferência de imprensa enquanto presidente do Governo (não conseguia perceber uma das mais básicas frases ditas por um jornalistas inglês...).

Há 10 anos a minha vida mudou porque aprendi duas lições que jamais esquecerei. Em política, num instante, tudo muda. Rajoy que o diga. Na vida num instante tudo acaba. As vítimas das 13 mochilas-bomba que o digam.

 

 

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publicado às 21:09



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